Os homens são os anagramas dos deuses;
A vida corre naqueles
Com a predestinação de desaguar na terra,
Na cinza, apenas com promessas
Ardendo no último fulgor dos olhos.
Os deuses possuem veias de pedra
E entretêm-se com os universos
Microscópicos e frágeis que os homens constroem,
Os homens apagam-se, arrancam-se
Como pó de uma página. Os deuses duram.
Os homens choram e amam
De acordo com a sua medida, com o que o seu horizonte
Pode abranger.
Os deuses, quando amam, criam mundos
E choram vulcões e maremotos
E sismos e fendas.
Mas há homens que moram muito acima
Do fim do tempo parado
Que a sua lápide assinala.
Os homens dependem do hausto
Da semente de ar,
Dependem da sapiência generosa dos deuses
Mas os deuses vivem
Apenas na nave da crença humana.
Nuno Rocha Morais
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