sábado, 24 de outubro de 2026

Os homens são os anagramas dos deuses;

A vida corre naqueles

Com a predestinação de desaguar na terra,

Na cinza, apenas com promessas

Ardendo no último fulgor dos olhos.

Os deuses possuem veias de pedra

E entretêm-se com os universos

Microscópicos e frágeis que os homens constroem,

Os homens apagam-se, arrancam-se

Como pó de uma página. Os deuses duram.

 

Os homens choram e amam

De acordo com a sua medida, com o que o seu horizonte

Pode abranger.

Os deuses, quando amam, criam mundos

E choram vulcões e maremotos

E sismos e fendas.

Mas há homens que moram muito acima

Do fim do tempo parado

Que a sua lápide assinala. 

 

Os homens dependem do hausto

Da semente de ar,

Dependem da sapiência generosa dos deuses

Mas os deuses vivem

Apenas na nave da crença humana.


Nuno Rocha Morais


 

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