sábado, 12 de outubro de 2024


 Também eu sei muita coisa

Que sedimenta na idade e na voz,

Coisas inúteis de que o tempo se desinteressa,

Saber do passado convocado

Nessas páginas de um sono,

Uma inércia.

Vou aprendendo tanta coisa inútil,

Vou abrindo gaveta após gaveta

E esses baús ciosamente velados

Por pó e treva.

Afinal eu só sei aprender,

Eu só sei saber,

Afinal tudo o que faço é para saber,

Os dias sopram para serem sabidos,

Tudo em si é uma ciência mínima,

Murmura, inapreensível de tão mínima,

Mas saber afinal.

Quanto mais aprendo desta vida,

Inutilidades, minúcias, pormenores,

Quanto mais aprendo a viver

Mais morto me sei.

A minha vida é aprender a morte.


Nuno Rocha Morais

domingo, 6 de outubro de 2024

 Não creio que viesse tentar a história,

Mas ia mudar-se, a vizinha britânica,

E precisava de uma chave inglesa,

Mas eu só tinha um alicate –

Ainda assim, podíamos tentar.

Ofereci os meus préstimos,

Desci as escadas em passo de trovador

E ela no seu passo em cabelo.

O alicate não servia, as porcas 

Obstinaram-se e não cederam –

Vim-me embora, não sei se ambos

Sentimos um futuro a desviar-se lentamente.

Quando fechei a porta, não houve sequer era uma vez.


Nuno Rocha Morais

Poemas dos Dias (2022)

domingo, 29 de setembro de 2024

Tenho na memória, misturados

Na mesma carne de imagens,

Factos e coisas que não aconteceram,

Mas que lembro no tempo e no espaço.

E o que não aconteceu

Não é menos forte que o real,

Subsistem da mesma forma

Na mesma forma,

Com uma diferença:

O que não aconteceu

Não tem um gesto, um sorriso, um passo

Por assombração.


Nuno Rocha Morais


 

sábado, 21 de setembro de 2024


O vento epiléptico

Faz rodopiar a noite,

Os espelhos dormem

E, de ti, nua, emerge a Primavera,

Tal como eu a quero.

Já não há sismos nos alfabetos

Nem violinos rompidos

Que a noite outrora traria.

Desperta em mim a respiração solta

Do sol sobre as praias e prados do Verão,

Dança indiana e doce da luz,

Lenta e tépida,

Tu dormes, acesa.


Nuno Rocha Morais 

domingo, 15 de setembro de 2024

 

Às vezes, queria traçar o percurso

De estar perdido de qualquer saber,

De já não nomear nada a partir do que sei,

Fixar a têmpora da manhã

E não reconhecer, de ignorar

Todos os gritos dos mudos sinais,

Apagar mapas, dissolver álgebras,

Partir leis contra a ignorância

Ou contra o exótico assombro

De uma excepção, de um descaminho.

 

Às vezes, perco-me,

Longe da pauta dos passos,

Apenas regido pelo êxtase desesperado

De estar perdido.

Às vezes, perco-me no tempo,

Mas em tempos infantis,

Pois possuo sempre saber suficiente

Para me recortar da branca desorientação

E regressar aos mapas dos nomes

E dos sinais.

 

Nuno Rocha Morais

 


 

 


domingo, 8 de setembro de 2024

Serenata


 

Uma saudade prisioneira

Numa guitarra,

Subindo pela encosta

Da noite negra,

Subindo como um perfume,

Um momento.

 

Uma saudade 

Que brota da guitarra

E em mim se confunde

Com a tua imagem.

 

Nas águas da guitarra,

A saudade

É o teu reflexo.


Nuno Rocha Morais

domingo, 1 de setembro de 2024

A incidência 
Da coincidência

O impacto

Do acto

O certo
Do que não ‘stá perto

Sol esbatido

Por detrás do vidro

É quando sou fraco

Que procuro ser opaco 


Nuno Rocha Morais

Até te ter sonhado, não acreditei Que estivesses aqui, ao meu lado, Não antes de, desde um sonho, Ter tocado o teu ombro na realidade. Nuno ...