sábado, 13 de junho de 2015

ADAMASTOR


Nos longos corredores da História
Há memórias plúmbeas de medo,
Mas cujo rosto não é o de Adamastor.

Adamastor é apenas o riso
De uma vontade virgem, inerte,
Inutilizada, que troça
Do nosso medo e mutismo.

                       
        Nuno Rocha Morais


quarta-feira, 10 de junho de 2015

CAMÕES



De ti, muito pouco sabemos
Que não seja verso:
O amor que, dócil, se estendia
Como praia matinal,
A vida traída nos declives
Dos enganos e — pior — dos desenganos,
O ser português que era algo
De não caber no peito,
Mas só no mundo.
Até os teus versos, onde os homens
Se tornaram deuses dos deuses,
Não soam humanos,
Incriados, alheios à pequenez da pena,
Envoltos no amplo silêncio de cantar,
Como ninfa da luz recém-nascida,
Nas tuas palavras se erige uma língua,
As suas novas dores e sortilégios e silêncios.
Tão somente isto de ti sabemos:
Alma de terra e oceano.


Nuno Rocha Morais

Ser português nunca foi fácil
Porque a língua foi sempre difícil –
Os seus litorais não se entregaram
Em enseadas e verdura
À nossa dor, ao nosso cansaço;
Nunca as suas sílabas carregaram,
Dóceis, brandas, claras,
O nosso silêncio, o nosso amor.
Não, ser português nunca foi fácil,
Não quando a língua tem de ser rasgada
E é uma ferida que se abre em nós.
Não, nunca o ser português foi fácil,
Nem sequer nas palavras,
Nem sequer no silêncio
E é difícil dizer-te porquê.


Nuno Rocha Morais

segunda-feira, 8 de junho de 2015

O PRÍNCIPE FELIZ



Pelo vagaroso céu, o Inverno sobe,
Convoca todos para a câmara de um envelhecimento.
O Sol resume-se ao rubi do punho da espada do Príncipe Feliz
E o diurno céu regressou às safiras dos seus olhos.
O ouro do dia já não cobre o Príncipe
E, aos seus pés, uma andorinha,
Alígera felicidade,
Instinto que o amor deteve.
O Inverno avança, o ouro dos dias
Caiu nos fogos das casas,
O Príncipe empobreceu,
A andorinha morreu,
Devassada, consumida.
E só agora, dirimido na sua beleza,
Mero coração de chumbo,
Irrigado por todo o amor da andorinha,
O Príncipe é verdadeiramente feliz.



Nuno Rocha Morais

domingo, 7 de junho de 2015







Canta, traz-me a serenidade
De uma qualquer serenata,
Um som qualquer, assobio,
Motor, dor que se esgueira
Por entre os lábios da contenção,
Algo que faça recuar estas paredes,
Canta ou conta fábulas,
Abre portas rangentes de mistério
E antiguidade nas lendas,
Canta ou rememora,
Que o brilho de uma evocação
Ocupe algum som,
Canta ou fala ou grita até,
Para que em mim a maré
De uma paz imensa desça,
A paz de um sonho de silêncio.


Nuno Rocha Morais

domingo, 31 de maio de 2015

ring ring ring ring ring Catholic bells !» W.C.W

Domingo num país distante                     .
Não falo a língua,
Mas, de súbito, ouço sinos,
Sinos por toda a manhã,
Sinos de igrejas que não descobri,
Ocultas durante a semana.
Não sou católico, mas é domingo
E por fim eis uma língua
Que posso entender:
Sinos, sinos, sinos.
E assim chegam até aqui os meus lares -
Posso ouvir os meus vivos
E, sobretudo, os meus mortos
Nestes sinos, na alegria destes sinos.
Não sou católico, mas ouço-os catolicamente
Porque os meus mortos morreram
Aconchegados na sua fé
E creio que a agonia
Lhes foi menor por isso.
Ouço-os agora nestes sinos,
No gáudio de sinos, revogando
Martírios, fogueiras, cancros.
Os sinos brincam, como cardumes,
Misturam-se com pombas, corvos, almas,
E são como um aceno dos meus mortos -
Que chegaram bem, que valeu a pena,
Que é tudo verdade.
Ámen.


Nuno Rocha Morais



terça-feira, 26 de maio de 2015


Gostaria agora que fossemos velhos,
E velha tu, junto de mim,
Passando a mão pelas dores
Que por fim foram douradas,
E que se tornaram parte da carne.
Gostaria de olhar para o teu rosto
Sulcado por muitos tempos
E ver nele, quase completa,
A minha vida.
Passou a estridula adolescência
Do corpo, do desejo,
Mas algo da alegria dura para sempre,
Mesmo se a chama se inclina,
Um pouco melancólica.
Abdicando do tempo, não da experiência. –
Se nos fosse concedido um absurdo.
Finalmente aqui estão duas vidas
Que, uma na outra, sabem algo sobre a vida.
Fica. Sem ti, terei vivido
Como alguém que não foi convidado.



                                                                                 Nuno Rocha Morais

Até te ter sonhado, não acreditei Que estivesses aqui, ao meu lado, Não antes de, desde um sonho, Ter tocado o teu ombro na realidade. Nuno ...