segunda-feira, 1 de maio de 2023


Em frente, fica o último prado

Onde pasta o último cavalo.

Atrás do prado, naufraga, afoga-se,

Soçobra o último sol

E nunca mais haverá um sol

Com face de prado e cavalo que pasta.

Amanhã, nascerão ali prédios,

Semeados por arquitectos,

Regados por homens de mãos grossas,

Impessoais, neutras, precisas

E, plantas concisas, brotarão os prédios.

Depois virão as mulheres

Que penduram nos prados dos fins de semana

Os seus alvos, perfumados esforços

Ou regam as suas enfermiças plantas,

Pálidas, sem vigor que cedo morrerão.

Afinal, o que é isto de Natureza?


Nuno Rocha Morais 

domingo, 23 de abril de 2023

Andamos ainda com as máscaras da liberdade
Que a sombra teceu para nós

E consumimos ainda sonhos ancorados

As estrelas foram dependuradas nos tectos

Os punhos foram decepados

Os passos mais ousados encarcerados nos canis e abatidos

Depois foram as notas do tambor roubadas

Aquelas notas verdes e rodopiantes

Que algumas mãos de noite enterraram no silêncio dos tímpanos

E o sangue que chegou ao coração

Trouxe ordens impressas

As pombas viram as suas asas transparentes

Substituídas por ossos negros

E na vida abriu-se um sorriso que durasse 

Com um estilete 


Nuno Rocha Morais

domingo, 16 de abril de 2023

 “A verdade é que estou confuso,

A verdade é que estou perdido.

Cada coisa que te digo

É uma declaração de guerra,

Ou nada do que te digo interessa,

E o silêncio é dar margem

A uma margem que cresce.

Marcaria encontro contigo, dentro de ti,

Para te perguntar onde estás –

Se ainda aceitasses ver-me.

Diria que te amo

Se aceitasses ouvir-me.

Dir-te-ia que estou aqui

Se ainda me aceitasses dentro de ti.”

Confundo as identidades

Da estrela da manhã e da estrela da tarde

Posso imaginar que os meus olhos

Estejam agora húmidos com a confusão

De um cão que não entende as palavras,

Mas apenas o tom.

Posso conceber que essa ternura perplexa

Cause repulsa, mas não a entendo.

Tudo o que te possa dizer

Te soará a declaração de guerra

Ou, pior ainda, a capitulação

Neste jogo de identidades que se desfocam,

Num combate de sombras

Entre forças que se desprendem.

E o silêncio é dar margem

A essa margem que cresce.

Em breve passará um rio, soará a noite,

E será o mundo.


Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 7 de abril de 2023


Há muito tempo, 

Entro nessa penumbra

Que, tonitruante,

Paramenta o espaço.

O entendimento de muitas metáforas

É pó, nada mais do que pó.

Pão, vinho, cordeiro –

O que significam estes símbolos

Onde Deus vai acordando

Como uma flor dormente?

E quem é esta gente, o rebanho,

Que conflui para os cânticos

Como um rio lento e seguro?

Uma estranha felicidade

Incensa as suas vozes incompreensíveis.

Há muito que guardo Deus

Como um livro fechado,

Órfão da fome que alimenta

E da ressequida sede que dessedenta. 


Nuno Rocha Morais

domingo, 2 de abril de 2023

Paguei já demasiado:

A estrídula acidez da vida,
O teu fogo indecifrável em mim,

Depois extinto, já nem cinza.

A luz que não ilude os olhos,

A luz, ainda outra forma de escuridão,

Este sofrer de não entregar a dor no verso,

Mas apenas vê-la reflectida nele,

Ampliada, propagada em quem me lê

A morte imperceptível.

Quanto ainda me resta pagar? 


Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 24 de março de 2023

 A conta.

Os números que recusam a placidez (do certo,)

Desencontrados, vagabundos,

Os números insones que fiam as longas horas

Em que se pensa neles.

É só uma conta, uma só,

Que representa, no entanto, todo o desassossego,

Não aquele do Bernardo Soares,

Deambulante nos seus horrores metafísicos,

Mas o desassossego com que o dia se levanta

Do seio da sua noite

Para nos apresentar mais outra conta,

Logo que esta esteja resolvida.

A conta.

Palavras a Deus. E Deus dá-nos também

Uma conta para resolver.


Nuno Rocha Morais

segunda-feira, 20 de março de 2023

Árvores

Mudam sem nunca se esquecerem

Do que foram, do que serão

Do passado que voltarão a ser

Reencarnando-se em si mesmas, 

Folha por folha, sem repetição,

Em cada anel somado ao tronco.

Temem tanto a primavera como o outono –

Não temem na sua tolerância tenaz,

Na sua constância consciente e desconhecida.

Agora, são um animatógrafo 

De folhas, de pássaros, de ventos menores.

Mudam, mudaram, voltarão a mudar,

Sem nunca se perderem,

Inteiramente conscientes

Na morte e na vida.


Nuno Rocha Morais

Até te ter sonhado, não acreditei Que estivesses aqui, ao meu lado, Não antes de, desde um sonho, Ter tocado o teu ombro na realidade. Nuno ...