domingo, 1 de abril de 2018

Uma vida parece pouco,
Reduzida a três malas.
Talvez me possa levar
Um pouco deste céu,
Talvez alguém ofereça
Um búzio, que em si contém
Uma súmula do mar.
Parece pouco e ninguém
Poderia imaginar a súbita importância
Do voo oblíquo de uma ave
Em frente de uma janela
Ou os ruídos tão familiares
Que vão atravessando
A espessura do sono.
Mas é isto que não se conforma
Em três malas e é isto –
Tão definitivo e tão pouco –
Que nega a pretensão de unidade
De uma vida, a que faltarão
O modo e a linha melódica
De certas falas.
Na bagagem, tudo amortalhado
No repouso de restos.

Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 30 de março de 2018

Catedral, palato de Deus -
Aqui, a morte é remissa,
Os mortos, tangenciais;
O tempo parte, a luz verga-se
Ou parte também
Em lábios apresados.


Nuno Rocha Morais

domingo, 25 de março de 2018

CONTRASTE


 
A cidade e o velho.
A cidade, tecido fumoso e irregular,
Onde moléculas se agitam, fervem,
Constroem, destroem.
E o velho, que sentado num banco de jardim,
Estático, fixa algo,
Talvez o pórtico da vida
E Infinito.
A cidade vive devorando-se
O velho morre vivendo.


Nuno Rocha Morais

domingo, 18 de março de 2018

Rangem enxárcias no ar
E as árvores esbracejam,
Como náufragas.
Cada folha apresta-se para a tempestade
Para desempenhar o seu papel no terror
Entre nuvens sulfúricas,
Na presúria do vento.
A tempestade que chega com um vagido
E as nossas duas almas que se rasgam
Como se, alguma vez, fossem uma,
Agora, na tempestade, no terror.

                               Nuno Rocha Morais

sábado, 10 de março de 2018


Os botões brilham? Oh, sim,
Os botões brilham como óvulos.
E as botas brilham? Oh, sim,
Brilham tanto de tão negras e polidas,
Que a nossa marcha em todo o lado
Deixou por rasto o abismo.
As armas estão limpas? Oh, sim,
Delas flamejam o fogo mais puro
E a morte mais limpa.
Os uniformes engomados? Oh, sim,
Tão bem engomados que dispensariam
Homens lá dentro.
E o olhos dos homens? Oh, esses,
É que já não têm homens dentro.
Mantém-se a disciplina? Oh, sim,
Até mortos, os homens vão de passo certo.
Juncam o campo, morreram por nada,
         Mas com garbo. Não nos deixaram mal, os rapazes.

                                                              Nuno Rocha Morais    

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Nostalgia do zero,
Que é a transparência numérica,
A identidade por cindir
Em múltiplos nomes –
Inúmeras errâncias
Na busca de unidade.
Nostalgia do tempo
Como um sonho.
Nostalgia das palavras
Ainda no seu inicio,
Não esta ciência incompreensível,
Hostil, oculta.

Nuno Rocha Morais

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Quando ela trouxer o anjo
Cuja espada te irá julgar,
Diz-lhe que nada tens a dizer
Senão que queres dançar com ela
Ao som da música que te dança no espírito,
Dançar com ela se agora for para sempre
Sobre as águas do lago,
Que por fim romperá a placenta
Até ao mar.

Nuno Rocha Morais

Até te ter sonhado, não acreditei Que estivesses aqui, ao meu lado, Não antes de, desde um sonho, Ter tocado o teu ombro na realidade. Nuno ...