quinta-feira, 13 de agosto de 2015

em "Últimos Poemas"



Vou por vielas sombrias,
Só pensamento e passos,
Com os olhos afundados em espiral.
Que operações do espírito
Se entregam a estes passos?
Vou pelas espirais sombrias
Daqueles que não têm amor,
Vielas sombrias como perguntas sem resposta,
Entranhando-se numa cidade animal,
De desejos mal iluminados.
Vou por vielas sombrias
Onde as paredes são pontuadas
Pelos vultos de putas,
Famintas de mais para viverem sem amor,
Cansadas, entregues, também elas,
À espiral das suas vidas.
Esta noite, como todas as outras,
As vielas sombrias, as putas,
Nada têm de sórdido.
São-me familiares como o pensamento
Que o amor não ilumina.
Este é, afinal, o críptico caminho de casa.

                  Nuno Rocha Morais


sábado, 8 de agosto de 2015

Deixo a verdade mentir mais
E mais, até a mentira ser verdade:
Fundem-se assim opostos em iguais,
Misturados em uma mesma grade.
Vejo então qual verdade a falsa ponte
Que num nós funde os nossos sós pronomes
E de ti faz tangível horizonte,
País onde me acoites e me tomes.
Pela falsa verdade é que eu te falo,
Ébrio de quanto quero acreditar.
Depois, é o teu espanto como um galo,
Um sino ou um alarme a despertar
A mentira do seio da verdade,
Alma que, pela morte, do corpo se evade.


          Nuno Rocha Morais

domingo, 2 de agosto de 2015

Apresentação

Acordei e era noite:
Por ela me chegaram as primeiras manhãs.
Já não ouvi as últimas palavras
Ecoando no útero da fábula,
Antes de os animais se calarem para sempre
Ou de começarem a falar uma linguagem
Que a nossa babel não pode entender.
Na escuridão dela, sem medo do escuro
Terei pisado a erva do paraíso;
Se pisei era quente, de um calor humano.
Já não vi anjos ou deuses ou serpentes.
Não conhecia o sabor da maçã:
Não tinha memória de nada.
Não me lembro do sabor inocente do leite,
Nem depois da água fria do baptismo.
Desci por este sangue,
Mas não saberia dizer exactamente
Quando, em que conjunção do tempo,
Comecei a existir. Talvez só ela possa.
Ela já foi alta e agora é pequena:
Os meus olhos cresceram,
Mas ela não mudou.
A sua voz encontra em mim
Os mesmos lugares, os mesmos jardins,
Para onde caíram os pássaros do Paraíso,
Que se recomeça em qualquer lugar,
Os jardins onde se senta, talvez um pouco mais cansada –
Os jardins estarão talvez mais longe.
Subimos a corrente, trago-te pela mão,
Para te revelar o segredo último,
Embora te diga apenas:
“A minha mãe”.


Nuno Rocha Morais




sábado, 25 de julho de 2015



I.
“Não lhe restam anos”, disse o médico,
Sem fingir pesar, num tom desapaixonado,
Como se falasse de um problema mecânico,
Do lamentável defeito de uma engrenagem,
Mas não mais que isso. Agradeci-lho.
Não me permitiu sequer esperanças
De pequeno porte, não vendo em mim
Mais do que o já cadáver,
De milhões de nós numa tapeçaria.
Não me restam anos, portanto –
Passei a viver contando só os dias.

II.
Milhões de nós, de elos, de passagens –
A tapeçaria de um homem.
Motivos: por exemplo, o cheiro de pedras quentes,
A sensação de uma sensação
Tão tersa como uma corda
Que, vibrada, permitisse agarrar a própria pedra;
O hálito da cal,
O Verão, a leveza de uma cidade
Que se prepara, de tão branca,
Para levantar voo na planura –
Mértola? Vila Viçosa? Que nó?
Mais motivos: o fio do que dizem certas vozes,
Que, conduzidas, também conduzem
À noite de beijos que não passam,
Não se dissolvem, mas antes ecoam nas bocas
E dados, se dão perpetuamente;
Certos perfumes, como o do limoeiro,
Das ameixas, o odor da terra
Que sucede, humoso, à chuva,
Da maresia no nevoeiro,
Do lodo numa ria,
O perfume de mercados
Que começam o dia –
O sabor de nomes
Pargos, percas, besugos, robalos, ferreiras.
Milhões de nós, um homem.
Milhões de nós numa tapeçaria,
As coisas criadas pela memória das coisas.

III.
A hóstia do incógnito –
Como saber se a tua alma é cobarde,
Como temperá-la contra o muito que teme?
Que homem és na extrema do homem?
Possas tu ser-te leve no caminho,
Viaja ligeiro – lembra-te,
Encontra o que puderes de acalanto
Em ti, à tua volta, no sereno,
Não leves na boca, na alma,
Mais do que um salmo,
Não saibas mais do que ser pequeno.

IV.
Nem um talvez, nem meio talvez,
Só um fio de talvez,
Que se batia corpo a corpo
Contra um nem isso –
Às vezes, um grito entrava na refrega
Dado por aquilo que ainda não era
O cadáver de serviço.

Nuno Rocha Morais




domingo, 19 de julho de 2015






Acontece que, quando posso, venho sentar-me aqui, num banco do Jardim de S. Lázaro, ao sol que haja, com pombas e reformados. Ao lado, a Biblioteca Municipal, onde vagueia o espectro do Herculano; no próprio jardim, perpassam versos do Eugénio de Andrade; num destes bancos – já não sei exactamente qual, mas também não tem muita importância -, comecei a ler o Teixeira de Pascoaes, numa improvável, mas só teoricamente, antologia do Cesariny; e, ali, voltado para a rua de D. João IV, está o busto do Camilo, talvez menos irado, por cortesia do escultor, talvez numa cortesia mercenária aos mercadores do Porto, contra as hipocrisias de burgo. Mas este não é um jardim de literatura, por mais que também o seja. Quando me sentia só ou quando quero sentir-me só – não sei se uma coisa decorre da outra e qual o sentido dessa  decorrência - , venho sentar-me aqui, com pombas e reformados, ao sol ao sol que haja, a ouvir o rumor de uma cidade que não sei se foi minha, mas, de qualquer forma, perdi. Houve entretanto anos a separar-nos, a minha vida que se desviou das suas ruas. Julgo, contudo, que sobrevivemos um ao outro, como costuma acontecer aos amantes infelizes. Talvez nunca mais nos possamos encontrar, encontrar verdadeiramente, num desses instantes de reconhecimento absoluto, em que se reconhece até aquilo que não se conhece, pelo menos não conscientemente, em que os olhos vêem tudo e revelam tudo. Talvez nunca mais nos possamos encontrar, mas tão alguma vez voltaremos a ser estranhos. É quase impossível dizer o que representa para mim esta cidade, este canto dela, este jardim. Amei esta cidade como se ama alguém de relações cortadas com a mãe – muito, mas numa surdina dolorosa e dorida.

Nuno Rocha Morais


sábado, 18 de julho de 2015








Uma vida parece pouco,
Reduzida a três malas.
Talvez me possa levar
Um pouco deste céu,
Talvez alguém ofereça
Um búzio, que em si contém
Uma súmula do mar.
Parece pouco e ninguém
Poderia imaginar a súbita importância
Do voo oblíquo de uma ave
Em frente de uma janela
Ou os ruídos tão familiares
Que vão atravessando 
A espessura do sono.
Mas é isto que não se conforma
Em três malas e é isto –
Tão definitivo e tão pouco –
Que nega a pretensão de unidade
De uma vida, a que faltarão
O modo e a linha melódica
De certas falas.
Na bagagem, tudo amortalhado
No repouso de restos.

                Nuno Rocha Morais



sexta-feira, 10 de julho de 2015

(Para a S.)

Sempre que me vias,
Eram os teus lábios
Em festa de riso,
Os teus olhos infestados
Por uma alegria verde;
  Era eu a sentir-me grande,
A sentir a unanimidade
De ser inteiramente eu,
Eram as minhas feições calcinadas,
Que adquiriam alígera coloração
De ser eu reconstruído.
Sempre que me vias,
Era eu surpreso pela correspondência
Entre a tua alegria
E a minha imagem.


Nuno Rocha Morais

Os homens são os anagramas dos deuses; A vida corre naqueles Com a predestinação de desaguar na terra, Na cinza, apenas com promessas Ardend...