segunda-feira, 6 de março de 2023

O verso do verso: Os versos nos versos

 

Que terei eu lido de quanto li?

Que sei eu dos complexos mecanismos da chuva

Ferventes na terra fértil ou até estéril?

Sei apenas que escrevo por rumos

Que me chegam de longe, muito longe,

De milénios de memória insciente.

Sei apenas que escrevo como quem desenterra

Alguns instantes de corpos metamorfoseados,

Como quem ouve um silêncio conhecido

E povoado de outros silêncios

Possuidores da ciência de um discurso

Erguido no sussurro do próprio silêncio.

Mas, quem leio quando me leio?

Quem se reflecte naquilo que escrevo?

O meu verso nasce de uma encruzilhada,

Nasce de um passado e de um presente

Carregados pelo meu nome.

Sei que a minha boca é um pêndulo

 E que as pegadas nas palavras

Só aparentemente não existem.

 

Nuno Rocha  Morais 


quinta-feira, 2 de março de 2023

 Março é o carteiro da cor.

Inúmeras manhãs de inverno

Depositadas nos braços descarnados das árvores

Vão amadurecendo em verde.

Os pássaros trazem traços

Perdidos que estavam entre a bruma.

Um rasto de rostos perdidos ao longo dos meses

Regressa – agora as árvores têm rosto.

Nas praias vão-se apagando o furor

E o mar doma enfim a morte.

Março garatuja os primeiros dias brancos,

De Março renasce o meu coração.


Nuno Rocha Morais

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Antecipação


Nenhum frémito trila

Na espera tranquila

Espera esfinge

Espera calada

Espera desalentada

Como se a espera à espera

Já se soubesse falhada

Como se diante da ânsia

Que se despoletava a cada vulto

Na curva a espera

Já soubesse quem era

E quem não era


Nuno Rocha Morais

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Le Moi Haissable


Pergunta-lhe, nada te dirá.
Decides, pois, segui-lo,

Sabes que está algures à tua frente,

Mas também atrás de ti

E que caminha ao teu lado.

Tece-se quando o desteces

E cresce no movimento inverso.

Abre-lhes as portas e ele fecha-as.

Às vezes, gostarias de o matar

Ou apenas de lhe ver o rosto inteiro

A uma luz inequívoca,

Saber, afinal, quais são

Realmente os seus olhos.

Odiaste-o tanto, tantas vezes

A sua existência te pareceu imperdoável.

Esgotarão ao mesmo tempo 

O círculo em que se perseguem,

E as forças. Reunir-se-ão,

Por fim, junto a um tronco

Rugosos e sem folhas.

Irão enfim falar,

Quando já nada há para dizer

Com o sol que declina. 


Nuno Rocha Morais

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023


Alguns homens sentem-se por vezes
Caules roxos, roídos pelo remorso,

Como se todo o ódio

Fosse um clarão da sua vontade

Ou da sua emoção encapelada,

Como se o instante que as aves

Ocupam no céu,

A sua fugacidade e dissolução

No espaço, a ruptura do seu canto

Fosse culpa sua.

 

Alguns homens sentem-se culpados

Das auroras revolvidas pelo fumo

E pelas mãos encerradas da ternura.

Alguns homens sentem-se por vezes

Culpados de todo o silêncio letal.

 

E não o serão?


Nuno Rocha Morais

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Eles partiram, sem saudade,

Com uma brisa azul no sangue.

Partiram para dar relevo 

E sensação ao mapa das coisas estranhas,

Partiram para afogar monstros

Apenas com a direcção do olhar.

Ao longo das bússolas,

As ilhas e os continentes brotaram.

Os homens naufragaram alguns das suas vidas,

Mas não surgiu nenhum monstro,

Todos os cabos se deram por vencidos

E entregaram a curva na mão dos homens.

O mais difícil foi partir,

Foi dobrar o cabo do coração.


Nuno Rocha Morais
 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Chega sempre essa idade em que se parte
E adeus de mãe, p’ra trás fica Sião.
Procuramos da vida nossa a arte:
Em cada dia cresce o coração.

 

Sião é mais e mais uma memória,

Paisagem que não mais será a nossa

E é por isso que a seca vida inglória

Deveio o lugar onde se remoça.

 

A morte, a quem dobramos a cerviz,

Só em Sião as águas matam sedes,

Só em Sião a sombra cai dos ramos.

 

Só em Sião o tempo foi feliz:

Presas jovens do sonho e suas redes

Velhos, é por Sião que hoje choramos.


Nuno Rocha Morais

Até te ter sonhado, não acreditei Que estivesses aqui, ao meu lado, Não antes de, desde um sonho, Ter tocado o teu ombro na realidade. Nuno ...