domingo, 27 de novembro de 2022

A criança fantasia

 


Avô, tu disseste “Não é assim”,

Com todo o saber no teu bolso,

Mas eu gosto mais do mundo assim.

Gosto de dizer que a lua é a rainha do céu

Durante a noite,

E que tem um vestido amarelo

Com nódoas castanhas.

Gosto de dizer que a noite vem

Porque chovem uvas,

Uma imensa chuva de uvas.

 

Avô, não quero saber

Dos movimentos do sol.

Ou que o sol é um astro.

Não. Ele é o olho arregalado

De Deus, que é um ciclope.

 

Avô, tu sabes que eu cresci,

Mas eu gosto de ignorar os meus passos,

Fingir-me criança,

Para tornar mais leves

Os anos, que já se vão amontoando

Sobre os meus ombros.


Nuno Rocha Morais (Poemas dos Dias 2022)

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

 

Misturam-se os corpos, não se misturam as vidas.

Sente-se em cada corpo 

A tensão dos segredos,

A resistência das ânsias

Que, lucífugas, se refugiam

Na superior distância da inexpressividade,

Um autismo urbano.

 

O corpo a corpo da indiferença,

A força que atrai cada um 

Para dentro do seu próprio mundo.

 

Um homem carregado de embrulhos

Risonhos em cores berrantes;

Uma mulher que espreita a aranha de um relógio;

 

Cada um enfrenta sozinho a sua vida

Sem descobrir gente dentro dos corpos

Que o rodeiam;

Ninguém olha cada pessoa como merece

Quem olha as pessoas?


Nuno Rocha Morais

terça-feira, 1 de novembro de 2022

A visita

Chegou sem aviso e instalou-se.

Ao princípio, nada disse. 

Depois, começou a falar, pausadamente,

E, a sua voz, uma imensidão

Defluía, humilde;

Não mostrou o rosto,

Mas estava em tua casa

E estava em minha casa.

Partiu como veio, sem aviso,

E ficamos um em frente ao outro,

Na minha casa,

A um tempo abismados e cientes

Do amor a que cada dia mais novo em nós.


Nuno Rocha Morais 

(Poemas dos Dias - 2022)

sábado, 22 de outubro de 2022

 Ela escondia-o tão bem em si,

Sem mãos e sem lábios,

Em ruas sem nome, portas sem número,

Que o rosto dele dispersou como pó

E é uma impossibilidade;

Ela escondia-o tão bem em si,

A ponto de a carne dele ser uma mentira

Que o corpo não bastava para desmentir.

Agora, atingido este conforto,

Verdade alguma o pode encontrar

E tudo acaba bem, com ela a esquecer

Que alguma vez o escondeu,

E ele mesmo esquecido de si.


Nuno Rocha Morais

sábado, 15 de outubro de 2022

Aproximam-se os tempos impossíveis

E nada do nosso possível lhes servirá de antídoto,

Nem sequer os umbrais ungidos de sangue.

Nada poderá impedir que chegue

O chacal com o lacaio pela trela.


Nuno Rocha Morais

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Estação


 Ai, as cidades aproximam-se

De novo do mar,

Numa zanga superada,

E suponho que, agora,

À mesa de uma esplanada,

O teu riso decreta o Verão.

E uma estação arrefece. 


                                             Nuno Rocha Morais

terça-feira, 4 de outubro de 2022


Não gritei: já sabia que Deus

Me tinha abandonado.

Não pedi que afastasse de mim o cálice

Porque eu era o próprio cálice.

Depois da sexta crucificação,

O meu corpo era tao insensível

Às suas chuvas como a terra estéril.

Batiam-me, os seus movimentos

Rasgavam-me, mas eu já estava

Fechada, como flor anoitecida,

Muito longe de mim,

Onde não me podiam alcançar.

Eu sabia que eles voltariam

Ainda muitas vezes,

Mas nem o seu ódio me conseguiu engravidar.


 Nuno Rocha Morais

Os homens são os anagramas dos deuses; A vida corre naqueles Com a predestinação de desaguar na terra, Na cinza, apenas com promessas Ardend...