domingo, 19 de junho de 2022

Sacrifícios da moda

Por falar da noite, herdei o romantismo:

Estou catalogado por romântico,

Ando vestido de romântico,

Falo por gestos de romântico,

Estou up-to-date: sou romântico

E estar na moda não é ser poeta,

Mas, neste caso é ser romântico.

 

Num peso levíssimo, sinto

Tanta, toda a poesia que não posso,

Toda a poesia que não sei,

Toda a poesia iminente, latente

Que em mim não se faz ouvir.

 

Sou romântico, estou na moda, não sou poeta.


Nuno Rocha morais

sábado, 11 de junho de 2022


 Eles partiram. Talvez tragam sol,

Talvez tragam sol à ranhura do horizonte,

Trazem peixes que atravessaram

A fronteira entre céu e o mar.

Trazem o norte de gelo no ventre do bacalhau

Trazem cheiros de sonhos e Américas nas sardinhas

Trazem praias e luz morena nos linguados do sul.

A bússola da fome aponta o mar,

É preciso partir e é preciso chegar,

É preciso voltar para a mulher

Que tenta repelir o negro adúltero.

Os pescadores sabem que só chega o dia

Quando pisam na praia cantante.


Nuno Rocha Morais

quarta-feira, 8 de junho de 2022


            Agora que a data se aproximou,

Se instalou, irredutível,

Tudo se há-de deixar fecundar

Por um sentido –

O lugar vazio como vento,

O mármore, as flores,

Que tomaram o lugar do sofrimento.

 

Nuno Rocha Morais


quarta-feira, 1 de junho de 2022

Cancioneiro


Deixa-te ouvir cada palavra,

Deixa cada palavra ver-te ouvi-la

Até que confie em ti

E te deixe segui-la no seu silêncio.

Segue-a, pois em silêncio,

Numa atenção desatenta,

Esquecida de si própria

E, porém, rapace.

Conhece o silêncio de cada palavra

Para a poderes perseguir, seduzi-la,

Sabe como convocá-la sem a dispersar.

Mas podes buscá-la ainda

Nas suas zonas de iluminação pobre,

Afastadas de um centro radiante,

Talvez aí a encontres.

Não precisa de ser impoluta

O verso é um efeito

Da pureza por artifício.

 

As primeiras falhas de um lirismo,

A primeira máscara arrancada

A um rosto assustado. 

 

Nuno Rocha Morais


terça-feira, 24 de maio de 2022

Nunca a paz

Em que os gestos são tempos estrangulados.

 

Nunca se extingam as conjuras,

O perigo, os inimigos;

A súplica que é o ódio,

Nunca a paz com ninguém,

Gritos desmembrados, sangue,

Dores pendulares,

Nunca a paz serena,

De rosto branco e inertes horas.

 

Nunca a paz de haste morta,

Para que de raiva

A vida espume vida.

 

Nuno Rocha Morais


terça-feira, 17 de maio de 2022

Salmo

Meu Deus, que a poesia me salve, e salve o meu amor.

Que a minha voz ainda seja humana.

Que alguém, cansado do caminho,

Entre no meu coração para dormir.

Que o deserto não seja tudo em mim,

Que algum fruto me seja confiado.

Que a crueza em mim não encontre ninguém.

Que alguma lua seja um segredo meu

E com ela eu possa salvar um forasteiro.

Que o amor não me sepulte.

 

Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 13 de maio de 2022

 

Um rio que é ar

Entre os lábios das margens;

Uma ponte sóbria, certa, segura;

O meu corpo inclina-se ao passo:

Atravesso a ponte?

Além continua o meu destino?

 

À luz silenciosa

Á brisa que inventaria as folhas,

Diante da rumorosa docilidade da água,

Sente-se a presença sem sombra

Da ilusão.

 

Mas o que é que a ilusão sustenta:

A outra margem,

O convite da ponte

Ou a minha inclinação para o passo?

 

Nuno Rocha Morais


Até te ter sonhado, não acreditei Que estivesses aqui, ao meu lado, Não antes de, desde um sonho, Ter tocado o teu ombro na realidade. Nuno ...