sábado, 20 de janeiro de 2018

Também os nomes não morrem,
Mas transformam-se
E, constantemente, emergem
Da morte que não possuem,
Banhados noutras formas.
Por isso, poderás negar-me,
Dissolver-me nas viagens
De pássaros agudos,
Porque eu volto,
Volto com o sol do sul,
Arrastado nas turbulentas águas
Das migrações,
Volto com o vento jovem,
Liso e límpido
Que chama Março
Da sua hibernação no tempo.
Diz folhas, diz dunas, diz frutos,
O meu nome nasce desses nomes,
O meu nome tem raízes nesses nomes,
Diz dedos, diz fragas, diz águas,
Diz ondulação, diz chuva, diz curva...

Nuno Rocha Morais

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Hoje tive uma alegria! 
Começamos bem o ano e espero não ficar por aqui... 
Saiu o livro "Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos" organizado por José Mário Silva e na página 51 temos o poema do Nuno "Convite à Senhora Bishop"



Poema de fim de ano


Todos os relógios sustêm a respiração
Ante o momento que poderá não vir.
A seiva para o passo seguinte é vital,
Nascituro perfil da terra que não se divisa.
Este é o momento em que os milénios
Correm ao encontro
Do segundo humilde que os faz existir.
O momento chegou e renovou-se
A ilusão de solo firme
E parece que o tempo
Cessou a gestação do fim
É um novo ano, mas começa sem ti
Há esta violência do passado
Contra um dia que o não conhece,
Um dia, um ano que, cego,
Abre outros veios,
Um dia que não reconhece quem somos,
O que passámos para suceder a nós próprios
E, dia a dia, reconquistarmos um lugar
Nas nossas próprias vidas –
E rasga, lacera.

Nuno Rocha Morais

domingo, 24 de dezembro de 2017

Hoje, é dia de Natal e, não sei,
Talvez estivesse só,
Se não fosse uma gaivota
Que repete círculos
Num céu estranhamente baixo,
Ela, como eu, longe do mar.
Ando por estas ruas distraídas
Que hoje me levariam a qualquer vida,
Ruas leves, à deriva, sem deus,
Um deus dissoluto, disperso em rituais,
Intocável a qualquer prece.
Há uma solidão que se espraia em mim,
Como um baldio, um descampado,
A infância faz força, pressurosa,
Contra o pensamento.
Não a deixo vir.

Nuno Rocha Morais

domingo, 17 de dezembro de 2017

“Meditações”

Aí está, Marco Aurélio, um homem indefeso
Perante as necessidades do Império,
Um homem que apenas queria uma vida
Entre quatro paredes, algumas ruas, uns poucos rostos,
Não esta imensidão viva,
Onde o latim é bombeado como sangue
E como sangue repelido.
Aqui está um homem perfeitamente comum,
Entre as coortes, atrás de um estandarte,
A glória há-de ser só umas jeiras de terra,
Não mais, Marco Aurélio, não mais
E vê como esse homem fraqueja,
Amaldiçoa, chora, como lhe pesa
O pilo, o elmo, o escudo, a marcha,
Como tem fome e tem sede,
Como o seu corpo teme igualmente
O calor e o frio. Não é um estóico,
Não é uma pedra de um império senil,
É um homem, quer vinho e mulheres,
Precisa periodicamente de não ser razoável,
De assassinar a equanimidade
E por isso será cobarde ou terá coragem.
Perdoa-lhe, Marco Aurélio:
És o imperador, ele segue-te,
Sem filosofia e, às vezes, sem deuses,
É só um homem.

Nuno Rocha Morais

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A casa

As camas, a mesa, as cadeiras,
Almofadas, lençóis, cortinas, tapetes –
Assim começamos a insinuação
Na casa onde o vazio é uma bruma.
Vamos aprendendo como a luz inverte a sua rota,
De uma janela à outra
Para ser manhã ou crepúsculo.
Começamos a respeitar o ritmo da casa,
A aceitar os diferentes tempos e silêncios
Dos quartos, da cozinha, da sala.
Depois chegam as coisas vivas,
Como os livros, as plantas, os quadros,
Os discos, as fotografias,
O jogo de xadrez para a mesinha:
Vão-se divisando os tons de uma memória
Que a casa aceita como sua
E nós entregar-lhe-emos o sono e a confiança.
Só faltam as nossas vozes e passos
Para definir o espaço da casa que se deslaça.
Assim a casa começa a respirar connosco,
Nossa, nítida.

Nuno Rocha Morais

quarta-feira, 1 de novembro de 2017



            Os nossos mortos sabem tudo sobre nós:
Conhecem as nossas palavras, as nossas almas
Por dentro, porque aí vivem,
Conhecem as bolsas de reserva,
As traições e as falsidades,
Conhecem até o que sobre eles
Nunca sentimos ou só começamos a sentir,
E por remorso, demasiado tarde.
Sabem tudo sobre nós, os nossos mortos,
E resta esperar que nos perdoem
O pouco que somos, e tantas vezes falso.

Nuno Rocha Morais

Os homens são os anagramas dos deuses; A vida corre naqueles Com a predestinação de desaguar na terra, Na cinza, apenas com promessas Ardend...