domingo, 4 de setembro de 2016


A tabacaria onde, anos a fio,
Comprei jornais fechou,
Por extrema unção, os vidros
Foram revestidos com folhas
De jornais antigos, mumificando
A velha tabacaria.
E fechou também a pastelaria
Que deixei de frequentar
E obscuramente entendo
Que, doravante e por uns tempos,
Todo o açúcar me pareça sórdido
E guarde um gosto de remorso.
Os hábitos não custam a deslaçar,
Parece quase indolor que sejam
Substituídos por outros
Ou que se ambientem noutros espaços.
Hoje comprei jornais noutro lado
E, transversalmente, ocorre-me
Que todas as religiões estavam certas
E, que a luminescência de um sorriso
É comungada por todos os deuses
Em todas as aras e nos núcleos
De todas as crenças.
A imortalidade cumpriu-se
Em plástico, mercúrio, pesticidas.

  Nuno Rocha Morais

domingo, 21 de agosto de 2016


Certas palavras entraram na nossa vida,
Ou começaram a inchar, a supurar,
Panarícios, seivas, cactos, pele.
A mãe a encontrar netos nos gatos.
Alguém deixou uma bênção em aberto
Para tudo o que farias depois.

   Nuno Rocha Morais

domingo, 31 de julho de 2016

Depois dos cinco continentes –
E porquê só cinco, meu Deus? –
Tenho a impressão de nunca,
Nunca ter saído do sítio.
A vida, não tanto o mundo,
É de um redondo melífluo
E o eterno retorno não passa
De uma forma de estupidez,
De uma tacanhez da imaginação,
De inépcia, só porque não soube
Provocar os lugares, a variação dos espaços.
(Esteve sempre aqui –
E sente o remorso do exílio.)

Nuno Rocha Morais

sábado, 16 de julho de 2016

PREVENÇÃO RODOVIÁRIA




A toda a velocidade,
Passamos por fardos de carne,
Montículos sangrentos;
No momento do estouro,
Talvez não tenha havido sequer tempo
Para um miado, para um ganido.
Depois, a escuridão,
A carne abandonando-se a si própria,
Embora recuse desintegrar-se,
É uma forma já inútil,
De um sarcasmo macabro,
Que se derrama ignorando limites
Que apodrecem, liquefeitos.
Nada é estanque, em toda a parte
Há uma afinidade de destinos.

Nuno Rocha Morais

terça-feira, 5 de julho de 2016

(GLOSA AO POEMA “AS MÃOS DADAS” DE JORGE DE SENA)


O outono solto.

Dêmos as mãos:
O amor — com mãos solícitas —
Faz destas dadas mãos
Idades infinitas.



               Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Não ter eu um país
Nunca soube ter um país
Um pais uma nacionalidade
Que me dissesse sob que perspectiva
O sol se põe qual a importância das direcções
Oeste país das velas
Sul reinos de águas morenas
Leste ou norte império do esquecimento
Um pais de nome pequeno
Que nunca seria gravado no tímpano de um mapa
Um nome como um seixo
Sim um país pequeno engolido entre as suas fronteiras
País quero dizer corpo ternura
País de montanhas prados vales rios
Um país que me ame
Um país que eu saiba amar
Que me peça esforço mas me conceda regresso
Que não desapareça na erosão do oceano
Que não seja terra volúvel
Um país rubro plano negro
Onde a morte me suba tranquila
E me dê tempo de a pensar
Não ter eu um país subjugado por mim
Estou de pé estar de pé é pedir independência
Sou túmulo do meu país
O meu país é ser meu túmulo

Nuno Rocha Morais

Até te ter sonhado, não acreditei Que estivesses aqui, ao meu lado, Não antes de, desde um sonho, Ter tocado o teu ombro na realidade. Nuno ...