sexta-feira, 10 de julho de 2015

(Para a S.)

Sempre que me vias,
Eram os teus lábios
Em festa de riso,
Os teus olhos infestados
Por uma alegria verde;
  Era eu a sentir-me grande,
A sentir a unanimidade
De ser inteiramente eu,
Eram as minhas feições calcinadas,
Que adquiriam alígera coloração
De ser eu reconstruído.
Sempre que me vias,
Era eu surpreso pela correspondência
Entre a tua alegria
E a minha imagem.


Nuno Rocha Morais

segunda-feira, 6 de julho de 2015

No teatro



A actriz liberta o texto
Que se dirige a eles, no silêncio,
E os rodeia até serem dele cativos.
O texto saberá o momento
Em que goza de entrada franca.
Depois, entra, abre portas na escuridão
E aí deixa palavras, sem nunca as perder,
O texto que agora, no silêncio,
Regressa à actriz e cuja voz ouvimos
Como vinda da nossa própria boca.


Nuno Rocha Morais


domingo, 5 de julho de 2015

Desenhos animados


As emoções começam por ser
Uma memória de imagens:
Imagens o bem e o mal,
A alegria, a amizade, o medo.
O meu primeiro filme foi, creio, “Mogli, o menino da selva.”
Lembro-me da pantera fiel, Baguera,
Do poderoso tigre Shere Khan.
Há emoções que me fitam com um rosto de madrasta,
Outras mordem maçãs envenenadas;
Também o meu coração se picou num fuso
E esperou, paciente, o príncipe que eu próprio era,
Se há alguma verdade nisso de Eros e Psique.
Muitos anos volvidos, na pele do Monstro
Amei a Bela,
Convicto de que o meu amor era já rei.
Muito de mim se fez real
Nessas existências coloridas.
Nas primeiras imagens vieram
As primeiras emoções, ou talvez vice-versa
Ou talvez os dois fossem simultâneos.
Eu, entre imagens e emoções,
Também era um menino da selva
Primeira visão da alma
Amamentada por uma loba.


Nuno Rocha Morais 

domingo, 28 de junho de 2015

Há já algum tempo que não brinco a ser criança,
Há já algum tempo que não sou sincero,
Que baralho verdades e mentiras num único nó.
Há já algum tempo que faço jogos de sombra
Com virtudes e vícios,
Há já algum tempo que me impingem hierarquias.
Já me dizem que é tempo de eu cortar
A casa numa família,
Ancorar na esposa, nos filhos, na carripana, no emprego,
Tempo de deitar cedo,
Acabar com as escritas,
Deixar as folhas devastadas de branco,
Deixar que o papel sonhe calado,
Que também eu não sonhe:
Em vez de sonhar, devo votar.
É uma vida que me propõem,
É ser gente que me propõem,
E eu não posso fugir, como fugir de ser gente?
A vida já me vai recortando uma memória
Já me morre como se me pertencesse.

Nuno Rocha Morais



È già da tempo che non gioco a esser bambino,
È già da tempo che non sono sincero,
Che confondo verità e menzogne in un unico nodo.
È già da tempo che faccio giochi d’ombra
Con virtù e vizi,
È già da tempo che mi impongono gerarchie.
Già mi dicono che è tempo che mi decida
A metter su famiglia,
Mi attacchi alla sposa, ai figli, al catorcio, al lavoro,
Tempo d’alzarsi presto,
Smetterla di scrivere,
Lasciare i fogli devastati di bianco,
Lasciare che la carta sogni in silenzio,
Che neppure io sogni:
Invece di sognare, devo votare.
È una vita che mi propongono,
È d’essere uomo che mi propongono,
E io non posso sfuggire, come sfuggire dall’esser uomo?
La vita già mi sta amputando una memoria
Già mi muore come se m’appartenesse.



Tradução de Manuela Colombo, Novara (Itália)

                      



Sotaque



As vogais sem cantos, sem sombras,
Arredondam-se e alongam-se:
É nelas que estou em casa.

Mas, por favor, nada de pátrias.




Nuno Rocha Morais

domingo, 21 de junho de 2015


"J’ai plus de souvenirs qui si j’avais mille ans."
Ch. Baudelaire

Acontece, às vezes, que sou demasiado velho.
Caudaloso, transbordo das margens,
Sinto-me maior que a ciência do tempo
E nada há que eu não tenha feito
E não há espesso cansaço que eu não conheça.
Tudo parece repetir-se
No fluxo de um ciclo conhecido e fechado,
Tudo possui um eco dentro da minha idade.
Já não me espanto somando as ruas
E as gentes com as estações.
O timbre da lágrima ou do riso sobre a página
Despertam o verso mais citado,
O verso que, de tão famoso, é já silêncio.
Venci a densa questão e o medo e a maravilha.
Acontece, às vezes, que sou demasiado velho,
Que em mim a vida mata por ser infinita.


Nuno Rocha Morais 

Até te ter sonhado, não acreditei Que estivesses aqui, ao meu lado, Não antes de, desde um sonho, Ter tocado o teu ombro na realidade. Nuno ...