sábado, 16 de maio de 2015

Dieta Mediterrânica



Os domingos cheiram a assado –
O meu passado gosta sempre de falar no presente  -
A mãe levanta-se cedo –
O meu pai e a minha mãe
São figuras de alegria, de riso,
Tal como muitas das presenças invisas, fantasmas,
Que me criam ainda –
Deita o azeite na terrina,
Depois o lombo e mais azeite sobre a carne,
Que escorre movido por uma espécie de ternura –
E depois as batatas velhas
Que a minha avó encerrava,
Em jeito de ouro inca, em três leiras
E distribuía depois pelos filhos,
Herança, transmissão de sangue.
E as oliveiras do quintal
Amamentavam-nos com um azeite muito ácido
E dos outros avós, limões e ovos.
É assim na minha família
A dieta mediterrânica.


Nuno Rocha Morais





domingo, 10 de maio de 2015

Cresce dentro de mim, despercebido.
Maternalmente, alimento esse estame
E o hóspede usurpa o códice de cada célula,
Que sujeita ao assédio da sua fome.
É uma omnipresença que se torna carne,
Como um destino, avatar exacto, matemático.
Vegeta e mineraliza.
A sua liberdade estende-se, ilimitada
Até onde vai o meu corpo.
Cresce, fetal, no seu incunábulo,
Cerra os pequenos punhos
Até que tenha força bastante
Para ser dor, gnose, nome – cancro.



Nuno Rocha Morais

sábado, 9 de maio de 2015

Certidão de nascimento



A folha de papel que tenho à frente,
Lavrada pela mão mecânica
E indiferente de escrivão, sou eu.
Nela sem emoção alguma, soa
A meia-noite e quinze
De um dia trinta e um de Dezembro.
Mas já estão alguns nomes
E entretanto esses nomes cresceram
Como trigo e encheram-se de amor
Ao crescerem comigo, são mel, cera, tecto.
Como um portulano, esta folha
Exibe as conjunções de vidas
Banindo o arbitrário do humano.
Não podia ser senão assim.
Mas a letra de máquina ignora tudo.
No entanto, esta folha de máquina sou eu –
Com duas gralhas, mas sem erros de ortografia,
E isto deixa-me tranquilo.


Nuno Rocha Morais 

domingo, 3 de maio de 2015

Mãe



A mãe dizia-lhe: o que não vires,
Escreve; o que não puderes,
Escreve. O que não escreveres
Será o que realmente viste e pudeste.
Agora sobre o pórfiro do céu,
Recomeça com aquilo que começou,
O barro mais elementar
E o leite mais necessário
Até ao fim – as palavras da mãe,
Agora que todo o outro amor é nada
E se recusa a abrir,
Tantas cidades e partida nenhuma,
Num abandono ainda quente.
Em pensamento, a mãe vem lamber-lhe as feridas,
Depois, talvez fique de novo o voo aflito
Perante demasiado espaço
E por toda a parte se ouça, ardente,
O arco sussurrante de uma voz –
Vem morrer –
Mas, se cair, há-de recomeçar,
Repetindo, repetindo sempre,
A única palavra que o salva: mãe
Desde o princípio, contra o fim.


Nuno Rocha Morais










sábado, 25 de abril de 2015






Há uma outra excelência nas cidades
Que têm um rio por alma,
Cidades aéreas e viageiras
Onde até a pedra é volátil,
Corpo nómada.
Desçamos ao cais: O rio à cintura da cidade
As frontarias das casas estão escurecidas
Pela humidade do tempo,
Mas há aqui um prenúncio de passado,
Uma história emergindo da obscuridade
Como a linha da terra emerge
Do horizonte estéril.
Todas as noites, todos os séculos
Se abeiram e aportam aqui
Podemos ouvi-los falar –
E até ver a sua fé cravejada de especiarias, ouro,
Sentir a fragrância dos mortos,
Os seus corpos atravessados
Pelo vento que vem do mar,
E entendemos estes séculos,
Aqui reunidos em consílio.
Partem, majestosos, sobem o rio
Mas deixam sempre vestígios,
Continuamente o passado
Visita o presente e o altera.
E é estranho que as coisas que não conhecemos
Não sejam irreconhecíveis.
As cidades com um rio por alma
Viajam, barcos para subir o esquecimento,

E é estranho que as tenhamos como nossas.

                                                            Nuno Rocha Morais



domingo, 19 de abril de 2015

Sorrisos para Mona Lisa



I
 O sorriso insondável
 Revelação sem evidência,

II
Se uma mulher feliz,
Se traída, se melancólica,
Se jubilante, se terna –
Nunca com tal intensidade
Um sorriso foi tão pouco:
Um sorriso para que nunca saibam
Quem fui, quem sou.

III
Sorrio-me talvez para vós,
Que me mirais
E estais mortos.

IV
Atraiçoei a minha linhagem,
Entreguei-me nos braços de um amante vil –
Este estar aqui –
Por ódio, por ódio;
De ódio é este sorriso
E os olhos semicerrados.

V
Ou a fadiga
De que nunca sabereis,
Convencional esposa
E mãe e trapo,
Por sorriso só esta fadiga
De que nunca sabereis.

VI
Nada entreabre de mim
O sorriso que nem é meu,
Mas uma gentileza do pintor.

VII
E eu saberei
Tudo de vós,
Por isso sorrio.






Nuno Rocha Morais







domingo, 12 de abril de 2015

Os avós

O sol entra secretamente pela janela
E deixa impressões semióticas na parede
Luz coada por cortinas de histórias.
O avô pega em mim e senta-me
Nos joelhos da marmelada quente
Que a avó criava com mãos alquímicas.
Gatos de cheiro andam por cima dos móveis,
Cheiros como passos rangentes
No chão de mistério de corredores solenes
Guiando à antiguidade da escuridão.
O Joli ladra – chegou o Inverno
Que invade a casa, arrefecendo-lhe o silêncio.
O Black abre a porta – que gato!
O avô cuidava das laranjas,
Eu, atrás dele, enterrando secretamente a minha infância.
Depois, à noite, a avó contava-me a mim e às lâmpadas,
Porque é que não estudou alem da 4ªclasse,
E eu dormia, de rosto encostado à ternura dos avós.
(O avô fumava Definitivos e a noite não era definitiva
Iam-me murmurando os olhos de cor,
                   O avô, na tropa, disparando um canhão.)


                     Nuno Rocha Morais

                    Poemas Sociais (2019)




Até te ter sonhado, não acreditei Que estivesses aqui, ao meu lado, Não antes de, desde um sonho, Ter tocado o teu ombro na realidade. Nuno ...