Ainda me preocupo
Se chove na tua vida
Ou se a madrugada surge
Com uma expressão metálica:
Um amor vencido, é invencível.
Nuno Rocha Morais
Não há um monumento à estupidez.
E, no entanto, ela prolifera
Mas talvez apenas se erga em bronze
A perpetuação de abstracções.
Quanto às estátuas dos grandes homens,
Nada acrescentam à sua grandeza,
Talvez irrepetível e, por isso, assustadora
De que foram, muitas vezes, expropriados.
A sua presença nada dirá aos vindouros:
Será objecto de curiosidade para uns,
E para outros, cada vez mais numerosos,
Não representará nada
Senão uma figura esverdeada
Pela merda das pombas e pelo esquecimento,
Que já não merece o centro de uma praça ou jardim.
Mas estes monumentos, em bronze ou pedra,
Estátuas ou bustos,
Representam, tantas vezes, um brinde
À nossa própria estupidez, perpetuada;
Representam a estupidez de uma geração
Que não soube merecer a grandeza
Dos homens que em sorte lhes couberam.
– Não há um monumento à estupidez:
A sua linhagem prolonga-se,
A figuração de abstracções,
Sejam homens ou animais,
De valores de grandeza
Representam o temor
De que esses valores sejam irrepetíveis.
Nuno Rocha Morais
É Junho – sei-o só pela textura do ar.
Disse ainda palavras humanas
À menina da caixa que comenta as minhas compras:
“Também gosto muito de Dickens.”
Espero secretamente que tenha lido Grandes Esperanças.
Depois no autocarro há uma criança
Que se indigna contra o pai,
Prestes a sentar-se em cima
Das pequenas flores que arrancou no jardim:
“Vais matá-las”, indigna-se.
Conheço muitos tipos de desespero,
Mas nenhum me assaltou hoje.
O meu amor infeliz fez-se esquecido.
Sou uma pessoa entre pessoas
E apetece-me sorrir-lhes.
Talvez aceitem o meu sorriso.
Nuno Rocha Morais
Canta tudo o que é, todas as coisas,
E aquelas que não são, dá-lhes ser, canta-as,
E canta as coisas mortas
Para as não deixares morrer.
Canta a adversidade,
Não para que ela fique do teu lado;
Canta a imensidão que ilude
Fins sucessivos sem nunca presumir
Ser eterna, não para que ela te prolongue;
Mas canta-as porque a adversidade
E a imensidão te situam,
Canta-as, canta-as sobre o amor acabado,
Canta o amor acabado,
Capta todos os timbres da sua palinódia,
Como mudaram os seus olhos
Como as cores nas águas
Com o mudar do dia.
E ao cantares as coisas que são
Tu és uma coisa que é,
Porque tudo chega ao mundo
Pelo pórtico do teu canto.
Canta um mundo a ouvir-se ser no teu canto
Porque cantas, nada acabou, nada continua
Porque cantas, tudo está,
O que não volta, o que nunca esteve
E o que nunca há-de vir.
Canta e isto significa estares mudo
Para poderes ver, para que a tua voz
Não afaste o mundo, desfigurando-o,
Canta para seres o mundo
E não a volúpia da tua própria voz.
Seja o teu canto quantos solos e quantos climas,
Quantos estratos e quantas eras.
Nuno Rocha Morais
Passamos pelas ruas sorumbáticas
Dos meus anos de estudante,
Residências e cafés cuja solidão
Procuramos não perturbar com a nossa,
Embora caminhemos juntos,
Embora saibas que te amo,
Embora não te possa estender a mão.
Tanta coisa aconteceu aqui
Taciturnamente, episódios
Mal iluminados por lampiões públicos,
Mas, mesmo nessa penumbra,
Os seus contornos, conheço-os de cor,
Reconstituo-os de memória,
Ainda assim, aqui, entre nós,
Eu não seja capaz sequer de dizer
O que é que não nos aconteceu.
[E do que nos aconteceu,
Não se encontrara caixa negra.]
Nuno Rocha Morais
Mergulho no rio do povo, No seu rio de suor e loção da barba E fritos e vozes roufenhas E silêncios saturados. O d...