domingo, 23 de julho de 2017

Não, Cristo, não mais sofras por mim,
Não morras mais por mim.
Liberta-te do mármore, da madeira,
Dos silêncios dos templos
Esquecendo que és fruto divino, Cristo, salva-me.
Não mais te deixes crucificar,
Deixa que os homens mesmo se crucifiquem:
Só assim eles aprenderão.
Deixa, Cristo, que nós saibamos mais do que metáfora
Os pregos devorando a carne,
Deixa que ouçamos a alma gritar contra nós
“Porque me abandonaste?”
Deixa que exactamente aprendamos, Cristo
O Gólgota que dentro de nós dorme,
Deixa que as lágrimas devorem os olhos –
A guerra no Monte das Oliveiras,
Deixa, Cristo, que nos reneguem,
Que nos dêem a beber o fel,
Deixa que saibamos o peso da cruz,
O peso das lágrimas de Madalena,
Deixa, Cristo, que aprendamos tudo por nós.
Só assim teremos merecido a alegria da morte.

Nuno Rocha Morais

domingo, 9 de julho de 2017

Em torno do tabuleiro
Quatro jogadores.
O jogo não flutua, alteroso,
É conduzido serenamente
Pela agulha da sorte,
Que percorre as peças
Dos quatro jogadores.
Depois de um gambito,
A Primavera joga a sua dama,
Colocada exactamente no centro:
Xeque-mate
Mas os jogadores sabem
Que todo o xeque-mate
É temporário.

Nuno Rocha Morais

domingo, 25 de junho de 2017

Eis o fraseado da tempestade,
Prelúdio e fuga, balbucio,
Um mundo ao sabor
De segundas intenções,
Aliciado, em que tudo encobre
E se predispõe ao seu contrário.


Nuno Rocha Morais

domingo, 4 de junho de 2017

Um pressentimento de morte


No meio da multidão passou por ti,
Olhou-te e sorriu apenas com um dos cantos da boca
E só a reconheceste quando ela te reconheceu.
Sabes agora que ela sabe onde te encontrar
E que está muito mais perto.
Mas, se nunca a temeste, conhecendo-lhe o rosto,
É verdade que a temes ainda menos.
É apenas mais um rosto, e será o último.

Nuno Rocha Morais

sábado, 6 de maio de 2017

OUTRA FALA


“O amor? Não me fale de luxos,
Por favor. Não tenho tempo
Para pássaros e estrelas.
Não tenho quem me ajude sequer
A abrir um saco plástico,
Quanto mais para me encher o coração.
Se escorregar na banheira,
É possível que ela se torne a minha sepultura
E que só um arqueólogo me encontre,
Ou algum vizinho mais extremoso
Incomodado com o fedor.
E quem me suportaria?
Ou como admitiria eu em mim
Alguém mais presente do que eu?
Não, já dobrei o cabo dessas ilusões.
Não me quero partilhar com mais ninguém –
Até porque não há nada para partilhar.
Acredite em mim: eu sei.
Tenho a idade da noite.”


Nuno Rocha Morais 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Nos sonetos de domingo,
Lembram-se da alma,
Ensaiam lindas mágoas,
Cantam amores menores,
Guardando sempre o melhor verso
Para outra altura.
Entre vírgulas resplandecentes,
A alma encena uma dor elástica
Em versos sem nenhuma quilometragem,
Versos de seda com sóis de cetim,
Amores de veludo e champanhes de  amém:
Nos sonetos de domingo,
É dia de ir à alma
E ver o que se pode inventar.

Nuno Rocha Morais

domingo, 2 de abril de 2017

Quem queria ser vitima
Olhava para o céu.
Olhar para o céu
Era uma forma de desistir.

Nuno Rocha Morais

Mergulho no rio do povo, No seu rio de suor e loção da barba E fritos e vozes roufenhas E silêncios saturados. O d...