sábado, 11 de março de 2017

(Pistas de leitura)

Ler em vez de viver, não:
Mas ler para sentir o ritmo
De que vai acontecer:
Ainda que não como.
Ver que portas são os livros
Quando se abrem e que mãos.
Ler para saber que se vive,
E ler durante, depois de tudo:
O vivido é a melhor leitura.

Nuno Rocha Morais

sábado, 18 de fevereiro de 2017

 -       Diz-me como é que sofres.
-       Em unidades de peso, distância e volume?
-       Diz-me como é que sofres.
-       A massa atómica do sofrimento?
-       Diz-me como é que sofres.
-       Deixando bosques e rios e vales?
-       Diz-me como é que sofres.
-       Basta haver amor para sermos infelizes?
-       Diz-me como é que sofres.
-       E se fôssemos reais?
-       Diz-me como é que sofres.
-       Em campo aberto ou por emboscada?
-       Diz-me como é que sofres.
-       Sem sacrifício e com orgulho?
-       Diz-me como é que sofres.
-       Sem sofrimento?

Nuno Rocha Morais

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Sou dos poetas que escrevem em casa,
No ventre de um silêncio familiar,
No centro de um acalento urbano,
Ruído, trabalho, pássaros,
A sofreguidão do tempo,
A cacofonia de uma rotina,
O poema perturbado
Pela imagem da gata que se espreguiça,
Pela amada, musa, mulher
Que espreita pela porta
A ver se estou ocupado.
Este é um acalento para acordar.

     Nuno Rocha Morais                                                                                  (Pintura de Rasa Sakalaite)

domingo, 22 de janeiro de 2017


Ao futuro dos meus filhos
Não posso legar-lhes o voo,
Apenas mais espaço para ele.


Nuno Rocha Morais

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

 
(Não consegui abrir uma garrafa,
Não consegui adormecer um bebé,
Não consegui dizer uma palavra
Quando, nesse momento,
Qualquer palavra estaria certa,
E, assim, o universo é fóssil e inútil.)


Nuno Rocha Morais

sábado, 31 de dezembro de 2016

Toda esta vida,
Todo este tempo em mim reunido
Para, afinal, servir de raiz a uma lápide;
Toda esta vida
Me soube a reencontro com as coisas.

Nasci no seio da mesma matéria,
Agrupada em várias formas,
Mas há uma igualdade
Entre mim e as coisas,
Comungámo-nos.

E, por isso, morrer
Será apenas voltar ao nada
De onde se ergue todo o início.


Nuno Rocha Morais 

domingo, 18 de dezembro de 2016

Uma Fala


A ninguém desejaria que estivesse
Agora dentro de mim,
Mas, como sabeis, senhores,
Não me assiste escolha,
Não há fuga,
Sou o meu próprio fogo, a minha água,
Inferno e dilúvio conciliados.

                  


Nuno Rocha Morais

Mergulho no rio do povo, No seu rio de suor e loção da barba E fritos e vozes roufenhas E silêncios saturados. O d...