quinta-feira, 2 de setembro de 2021

 

Nunca foste tão feliz

Como aos dezassete anos

Da governação do teu corpo,

Tão feliz por não conheceres, dizes,

Amor nenhum

Excepto aquele com que te amavam.

Ninguém que a tua beleza não quisesse

Poderia existir no reino dos teus dezassete anos;

Os teus olhos bastavam para extinguir ou criar,

Nada do que fixavam se perdia

E era todo um mundo que os seguia,

Como se de um capricho deles dependesse

A luz, a neve, a aceleração de sóis,

O tecido leve das noites.

Aos dezassete anos, o riso dos amigos

É o melhor dos lugares conhecidos,

A única recompensa, a única família.

Nunca mais a alegria terá dezassete anos,

Tão humana e tão leve

Na sua declaração de sóis,

Nos primeiros relances sobre a alma,

Terra ainda fácil, tão fácil,

Todas as almas dançáveis,

Todas querendo dentro de ti

Ser o teu corpo porque nunca assim se viveu

A festa de ser um corpo.

 

Nuno Rocha Morais

domingo, 29 de agosto de 2021

Arqueologia


São novos e velhos.

Vêm recolher as cinzas das cidades

Procuram remexendo cuidadosamente

O pó de tudo o que passou,

O verbo em escombros,

Palavras e moedas e porcelanas –

Troco que a morte deixou.

Procuram pedaços para compreender

Com os sedimentos

Deixados no fundo do cálice

Da desolação e devastação.

Oxalá haja alguém assim para nós.

 

Nuno Rocha Morais

domingo, 22 de agosto de 2021

Chegada ao Novo Mundo

Lanço os dados da navegação

Para o centro das eras invioladas

O longe é o continente mais imenso

Albatrozes poucos nítidos

Informes suspiros de nuvens

Rasgam a sorte

Que tempo levantam que safra

Que destino?

É um oceano que me cega

É este ar imenso livre caverna

És tu que aí te escreves

Cuneiforme doçura

É para aí que a terra se concentra

Numa ilha num pais

É para aí chegar

Que atravesso o erro das estrelas

Apontando apenas as coordenadas de mais vazio

E para aí chegar que atravesso estas sombras

Heras eternas culpa da superstição

Venço-me para te vencer

Tu és toda a tenebra e tormenta

Todo o vácuo que ao dar-se tira

Tira o fôlego da alma

E assim que se começa a morrer

E as velas deixam cair a brancura

Atravesso toda a confusão da bússola

O norte o sul o este o oeste

Moram-me nas raízes dos músculos

Os meus braços são o vento a bonança

Só vencendo-me eu te posso vencer

Navego para a tua nascente

Leito da terra édito do sol

Penetro na louca mente abissal

Aventura dos teus olhos

E chego enfim à palavra do teu corpo

Todo o sal na boca

Desvelo a palavra do teu corpo

Novo Mundo

 

Nuno Rocha Morais

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

 

Não há poetas mortos.

Há só leis superiores aos poetas,

Mas que os não retêm nas suas redes.

Um poeta morto

Seria como se a linguagem alígera do sol se apagasse,

Como se cessasse o seu fogoso galope de fogo.

 

O poeta vive sempre.

O poema prolonga-o teimosamente,

Transporta-o da morte

Para o presente, o passado, o futuro dos vivos.

 

Um poeta morto,

      Se tal existisse,

Seria um vácuo nos corações

Das gerações futuras.

 

Nuno Rocha Morais

terça-feira, 10 de agosto de 2021

 

O ano incerto, abstruso –

A Primavera sistemática, completamente

Estrábica, os absurdos tufos da chuva no Inverno,

A arrogância e soberba dos Verões,

A reticência de Outonos imperceptíveis,

E os amantes chorosos, sem estação

Outra para caírem em leitos de folhas

E que acabam por foder em qualquer lado.

O que se pode esperar de um homem

Senão um homem e uma besta?

A incompetência de um espaço desastrado

Que se derrama em toda a parte e nunca chega,

E se estira e se estatela,

Para por fim revelar o seu rosto

E ser o tempo embuçado,

Um tempo que, por fatigada

Mas sempre vertiginosa velocidade,

Nunca chegou a passar

E nunca foi mais nada senão

Uma máscara do próprio espaço. 

 

Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

 No limbo entre o sentir e a inteligência,

Na distância da inteligência à imaginação,

Da imaginação à tinta,

Da voz que dista entre a tinta e a página,

No caos entre a página e a palavra,

O poema desenreda-se

E amanhece.

 

 Nuno Rocha Morais

 



 


terça-feira, 3 de agosto de 2021

                                    “Eu sei

                                      Que  as nossas raízes se frequentam”

                                                Guillevic  

                                             (Trad. de Egito Gonçalves)

 

 

Eu sei, as raízes,

As nossas linguagens

Estendem-se e entendem-se,

Areais sem passos.


 

Nuno Rocha Morais


Mergulho no rio do povo, No seu rio de suor e loção da barba E fritos e vozes roufenhas E silêncios saturados. O d...