domingo, 2 de dezembro de 2018

A morte é aquela que mente
Ao estar entre o que és
E o que serás.

O teu futuro
Existe já no teu presente, inviso,
Oculto pela morte. Ela mente.

És já quem serás,
Serás quem és,
Serás quem foste.
Mas a morte mente
Para existir.

Tu crês nela.
E morres. Eu não creio.
Sou tudo o que há em mim
Para ser, o ser tido,
O ser a haver.
Não creio na morte. Tu crês.
Morres.
E eu também. Mas sem morrer.

Nuno Rocha Morais

sábado, 24 de novembro de 2018

Ainda bem que as crianças são subterrâneas,
Animando sombras e colorindo-as;
Ainda bem que nenhuma feição das crianças
É de pedra, trazendo dos rostos
A verdura das manhãs;
Ainda bem que nada nas crianças é real,
Ainda bem que as crianças não têm nome,
Tendo um nome comum, o da infância.
Ainda bem que as crianças são respirações
De planetas distantes,
Aparentemente impermeáveis à orbita de orvalho da vida,
Ainda bem que as crianças têm nos dedos
Todos os gestos possíveis.
E que dor imensa ver as crianças atiradas
Para o fluir ígneo da estrada.

Nuno Rocha Morais

domingo, 11 de novembro de 2018

O poema mais belo do século XX
Escreveram-no os generais da I Grande Guerra,
Com tropos como Verdun, Sounne, Paschandele,
Recursos como a lama e o arame,
Cavalos-de-frisa e o som do apito para o ataque,
Apenas o gás vivo na terra-de-ninguém,
A manhã que matou Wilfred Owen
No canal de Oise-Sambre.
As potencialidades fónicas
Cenográficas, pictóricas, expressivas da morte
Nunca foram tão bem exploradas,
Não se escreveu poema mais rico,
Tantas são as intertextualidades
Com as últimas palavras de nove milhões de homens,
O Génesis reescrito.
Nenhum verso tem a veemência
O poder expressivo do "shrapnel".

in "Galeria" de Nuno Rocha Morais

domingo, 4 de novembro de 2018

              Com fogo e perda obtém-se
          Uma gota mais perfeita
          Do que oxigénio, hidrogénio,
          Cloro e sódio na planura
          De uns olhos.
          Decomposta uma lágrima,
          Não se surpreenderá sal e água,
          Mas fogo e perda.


          Nuno Rocha Morais


Cl

quinta-feira, 1 de novembro de 2018



A música, parecendo embora
Aprisionada nas grades de uma pauta,
Torna sempre imprevista,
Perpétua surpresa, ainda que escrita.

Nuno Rocha Morais

domingo, 14 de outubro de 2018

O que vivo parece empenhado
Em destruir o que espero.
Mas alguma coisa espero
Para a minha morte,
Como uma espécie de riso
Final e póstumo:
Que ninguém sobre mim
Perturbe ervas daninhas
Ou, como elas, crianças
Que queiram vir brincar
Sobre e dentro do silêncio
Disposto sobre a minha morte.
Deixem-me ir com elas,
Dentro do meu riso –
É tudo o que espero,
Se além há uma vida,
Se além se pode esperar
Mais do que nesta.
E esse instante de riso
Não é pouco para a eternidade –
Nem menor quimera
Ou mais sábia loucura,
Perpétuo numa risada.

Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Aviso


Acreditar na palavra? Porquê?
Porquê, se a sua aparência esmaga os sentidos,
Porquê, se a verdadeira palavra
Foge, aérea de voz em voz,
De verso em verso, inalcançável?
Porquê se a imagem
Que reflectimos na palavra
Nunca é inteira, nunca é completa?
Porquê, se na palavra o que dizemos
Se refracta e dissolve e perde,
Se a palavra é apenas o artifício navegável,
Um prelúdio do silêncio?
Ainda assim, afundamo-nos nas palavras
Bebemos-lhes a cicuta espectral,
Cremos e entramos nelas e perdemo-nos
Na tempestade de areia do seu esquecimento,
Em que de nós mesmos desaparecemos.


Nuno Rocha Morais

Mergulho no rio do povo, No seu rio de suor e loção da barba E fritos e vozes roufenhas E silêncios saturados. O d...