sábado, 14 de abril de 2018

(Love again?)

Nenhum gelo é irrevogável,
Nenhuma pedra inexorável:
O possível espreita sob a forma
De erva, uma folha, um olhar.
E então as pedras pedem pólen
E o gelo é feliz ao sol,
E a erosão canta e esculpe.

                                                                                                                                             Nuno Rocha Morais

domingo, 8 de abril de 2018

Atravessei o pez da noite,
O insecto indemne através da teia
De nuvens e poços de ar
E electricidade estáticas.
As luzes da pista surgem
Como ao longe a ressurreição
Para uma alma condenada
E ao fim de várias eternidades
A fuselagem da alma está salva
Quando as rodas tocam o asfalto
No apocalíptico rolar da salvação.

Nuno Rocha Morais

domingo, 1 de abril de 2018

Uma vida parece pouco,
Reduzida a três malas.
Talvez me possa levar
Um pouco deste céu,
Talvez alguém ofereça
Um búzio, que em si contém
Uma súmula do mar.
Parece pouco e ninguém
Poderia imaginar a súbita importância
Do voo oblíquo de uma ave
Em frente de uma janela
Ou os ruídos tão familiares
Que vão atravessando
A espessura do sono.
Mas é isto que não se conforma
Em três malas e é isto –
Tão definitivo e tão pouco –
Que nega a pretensão de unidade
De uma vida, a que faltarão
O modo e a linha melódica
De certas falas.
Na bagagem, tudo amortalhado
No repouso de restos.

Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 30 de março de 2018

Catedral, palato de Deus -
Aqui, a morte é remissa,
Os mortos, tangenciais;
O tempo parte, a luz verga-se
Ou parte também
Em lábios apresados.


Nuno Rocha Morais

domingo, 25 de março de 2018

CONTRASTE


 
A cidade e o velho.
A cidade, tecido fumoso e irregular,
Onde moléculas se agitam, fervem,
Constroem, destroem.
E o velho, que sentado num banco de jardim,
Estático, fixa algo,
Talvez o pórtico da vida
E Infinito.
A cidade vive devorando-se
O velho morre vivendo.


Nuno Rocha Morais

domingo, 18 de março de 2018

Rangem enxárcias no ar
E as árvores esbracejam,
Como náufragas.
Cada folha apresta-se para a tempestade
Para desempenhar o seu papel no terror
Entre nuvens sulfúricas,
Na presúria do vento.
A tempestade que chega com um vagido
E as nossas duas almas que se rasgam
Como se, alguma vez, fossem uma,
Agora, na tempestade, no terror.

                               Nuno Rocha Morais

sábado, 10 de março de 2018


Os botões brilham? Oh, sim,
Os botões brilham como óvulos.
E as botas brilham? Oh, sim,
Brilham tanto de tão negras e polidas,
Que a nossa marcha em todo o lado
Deixou por rasto o abismo.
As armas estão limpas? Oh, sim,
Delas flamejam o fogo mais puro
E a morte mais limpa.
Os uniformes engomados? Oh, sim,
Tão bem engomados que dispensariam
Homens lá dentro.
E o olhos dos homens? Oh, esses,
É que já não têm homens dentro.
Mantém-se a disciplina? Oh, sim,
Até mortos, os homens vão de passo certo.
Juncam o campo, morreram por nada,
         Mas com garbo. Não nos deixaram mal, os rapazes.

                                                              Nuno Rocha Morais    

Mergulho no rio do povo, No seu rio de suor e loção da barba E fritos e vozes roufenhas E silêncios saturados. O d...