sábado, 28 de fevereiro de 2026

O céu tão límpido, vazio

E a terra tão cheia –

Por toda a parte,

A construção da vida e da morte.

Que mundo poderemos ainda erguer

Deste espaço envelhecido?

Deste espaço que não é multiplicável,

Só dentro dos olhos

O horizonte cresce

E é infinito.


Nuno Rocha Morais 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Confissão de abandono

Neste momento exacto,

Se a exactidão é possível no tempo,

Sou um buraco de mim.

Deixa-me acontecer paradamente

Nos meus pequenos sonos de pó,

Nas pequenas redomas da minha solidão.

Não sei se o verão trará lugar para mim

Ou se esse lugar serão os teus braços.

Sou agora um tronco de árvore,

Um silêncio de pé.

Não me peças que disseque o meu olhar,

Se queres fazer algo por mim,

Diz ao dia que não insista mais comigo.

Fechei.

 

Nuno Rocha Morais

 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

Vem do largo, vem do mar, o vento longo,

Vem pôr cadências no teu cabelo,

O vento largo, o vento longo.

Entanto, o silêncio exíguo,

A luz sulfurosa num voo sucinto,

O céu incipiente, os rudimentos da manhã.

O que respiro não é livre.

O que chega já não é o mundo.

Aqui e agora imóveis – no preciso instante,

No ápice da agonia, que vem do fundo,

De um mar afogado num signo.


Nuno Rocha Morais
 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Companhia

 Livro,

Companheiro de chuva,

De céu puro,

Quantas vezes segui o fio

Das horas nas tuas páginas.

Quantas vezes me li,

Te vi o meu reflexo;

O que eu abri do mundo.

 

Silente, vivo,

Lá está, tranquilo,

Aguardando-me,

Correr de regato ávido. 


Nuno Rocha Morais

O poema como um sismógrafo de ilusão, Em cujas palavras vazias de som Se adivinha o coração suspenso. O poema como um arar sem revolver, O l...