sábado, 24 de janeiro de 2026

Indagações no exílio

 

Velha proa harpa dos ventos
que mares tangem tuas cordas


O mar antigo contido

numa estrofe de Camões?

 

O mar dos mercadores

mar negreiro

cavado nos porões?

 

O mar das searas concretas

mar das ceifeiras

mar dos poetas

o mais vasto mar da marinhagem

que nada teve nunca?

 

Velha proa harpa dos ventos 


Nuno Rocha Morais

sábado, 17 de janeiro de 2026

Quando a escrita a si mesmo se molda

Muito britânicos, fomos tomar café de monóculo.
Galinhas rasgavam de som as horas, algures.

Havia sonhos muito decotados, muito seios,

Havia candeeiros onde as mãos se substituíam.

Alguém escrevia com bolas de ténis

Um guarda-chuva bebia conhaque com um peru.

 

Escrita automática
Esgrima autónoma

Auto escrita automática

Atemática escrita

Estro astro

Bestial escrita

Antónima escrita 


Nuno Rocha Morais

sábado, 10 de janeiro de 2026

Mundividências


 

I. Espera e confia

  Assim, a chacina

  Custa menos.

 

II. Para este mundo já não há

    Argumentos ou atenuantes.

 

III. Só pela dor o mundo

      É evidente.

 

IV. Ó vida,

     Diamante de esponja. 



Nuno Rocha Morais

sábado, 3 de janeiro de 2026

O momento mais puro

Guardei-o sempre em mim

Por medo da pureza.

Fui antes duro e execrável,

Abri os braços à ira, rédea solta,

Como só assim o amor

Fosse suportável, humano.


                    Nuno Rocha Morais
 

domingo, 28 de dezembro de 2025

sábado, 20 de dezembro de 2025

A partir de Empédocles

És tu, mas a tua alma percorre um ciclo

E é rapaz, donzela,

Planta, e ave, e peixe nas ondas,

Mas de ti nada se perde:

És sempre tu e serás tu,

E assim cumpres a mais alta lei.


    Nuno Rocha Morais 

domingo, 14 de dezembro de 2025

As searas navegam no vento,
Os campos correm, ondulam.

Eu sei, este tempo morrerá aqui

E os mortos escurecerão a terra.

A vida ensina a morrer:

Com as estações e os cães,

Também esses que amamos,

Sempre breves, fugazes

E que a morte arranca aos nossos solos,

Como ervas daninhas,

E é a morte já em nós,

Semente dolorosa.

Eu sei, morrerei

Cansado de tanto ter já morrido. 


Nuno Rocha Morais

Indagações no exílio

  Velha proa harpa dos ventos que mares tangem tuas cordas O mar antigo contido numa estrofe de Camões?   O mar dos mercadores mar negreiro ...