A minha voz pode esquecer-te,
Mas não o meu silêncio.
De sofrer por ti fiz a minha casa –
O escárnio e o absurdo
Passam sempre, por mais que durem.
A casa fica.
Que me esqueças é a única morte,
O único deserto.
Nuno Rocha Morais
A lua.
Se olhares para cima,
Ela pinga-te nos olhos
E, cada vez que olhares,
É outra a lua que pinga.
Nuno Rocha Morais
Cada um por cada dia.
Cada um por cada sol,
À descoberta da terra.
Só eu fiquei abandonado,
A chorar de poesia,
Poesia a cada dia,
Poesia a cada sol.
Nuno Rocha Morais
A paz de ossos acomodados –
A Primavera desponta
Como um problema exótico
Que todos os anos,
Necessita de resolução.
Nasce com os sinos,
Explode, quando a placidez da invernia
Se inclina, desgastada,
Apodrecendo.
Tudo se prepara, ansiosamente,
Para receber novo rosto:
Acabou o tempo das ilhas.
Nuno Rocha Morais
Resumido num ponto irrespirável
De longe, vem a noite
Sedimentar as suas vozes
E todo o pensamento se ateia,
Envenenado de imagens,
Deslumbrado de tristeza incógnita
Que alastra pelo meu nome
E se torna a minha idade,
A minha biografia.
Pela trama da tristeza é que eu penso,
Por aqui passam pesadas,
As pré-históricas horas,
Fossilizadas nesse passado
Em que me consumo.
Que importa o presente
De que, levemente, bebo a morte?
Ah!, e só ver os olhos dela
Seria apagar pegadas rumo ao meu fim.
Nuno Rocha Morais
A minha voz pode esquecer-te, Mas não o meu silêncio. De sofrer por ti fiz a minha casa – O escárnio e o absurdo Passam sempre, por mais que...